
A nova importação brasileira encontra-se em um ponto de inflexão decisivo. Com um cronograma definido para a entrega das etapas finais e o desligamento completo da Declaração de Importação (DI) previsto para este ano, o país avança rumo a um modelo mais moderno, baseado em dados, interoperabilidade e gestão inteligente de riscos.
Esse movimento não é isolado. Ele reflete uma transformação estrutural mais ampla na forma como o comércio exterior é gerido, com foco crescente na qualidade, disponibilidade e uso estratégico da informação.
Nesse contexto, iniciativas do setor privado voltadas para o controle baseado em dados ganham relevância estratégica. A promoção do Conhecimento de Transporte Eletrônico (e-CRT), impulsionada pela ABTI em articulação com as principais associações regionais do transporte terrestre internacional, não apenas acompanha essa transformação, mas antecipa soluções alinhadas ao novo paradigma operacional.
Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo apresentar e disponibilizar o estudo “Modernização do transporte terrestre internacional no Cone Sul”, desenvolvido pelo Instituto Aliança Procomex em conjunto com entidades representativas do setor. O estudo analisa o papel do Conhecimento Rodoviário de Transporte (CRT) no modelo atual de operação, identifica as principais limitações estruturais associadas ao seu uso em formato físico e propõe elementos-chave para a implementação de sua versão eletrônica (e-CRT) no âmbito regional.
Os dados levantados no estudo Modernização do transporte terrestre internacional no Cone Sul mostram que o modelo atual não apenas gera ineficiências, mas condiciona estruturalmente a operação do transporte internacional. Mesmo nos passos fronteiriços mais eficientes, apenas cerca de metade do tempo total está associada a atividades de controle. O restante é consumido por esperas, transferências documentais e deslocamentos internos.
Isso evidencia que o principal gargalo não está apenas nos processos de fiscalização, mas na própria lógica operacional baseada no controle de documentos em papel que demanda uma sequencialidade de atividades que consomem recursos humanos, financeiros e tempo nos cruzamentos fronteiriços.
Um dos achados mais relevantes do estudo é que, apesar da digitalização de diversos processos aduaneiros e logísticos, o CRT continua operando apenas como um documento físico ou, no máximo, como uma imagem digitalizada.
Na prática, isso significa que:
Esse ponto é central. A nova importação brasileira se baseia justamente na capacidade de antecipar informações, qualificar dados e direcionar controles com base em risco. No entanto, enquanto o principal documento do transporte terrestre internacional não for tratado como dado, esse modelo não se completa.
A implementação do e-CRT representa mais do que a digitalização de um documento. Trata-se de uma oportunidade concreta de reorganizar o modelo de controle do transporte terrestre internacional .
Ao permitir o registro antecipado das informações, sua validação automatizada e o acesso compartilhado entre autoridades, o e-CRT viabiliza um novo esquema operacional baseado em dados.
Isso implica avanços diretos em aspectos críticos:
Em outras palavras, o e-CRT materializa, no transporte terrestre, os princípios que já orientam a nova importação brasileira.
O desenvolvimento do e-CRT no Cone Sul surge como uma iniciativa impulsionada pelo setor privado, em articulação com diferentes atores do transporte internacional. Essa característica é particularmente relevante. A transformação proposta não parte apenas de uma demanda tecnológica, mas de uma leitura estruturada dos desafios enfrentados na operação fronteiriça.
Nesse sentido, o estudo sistematiza a análise a partir de três dimensões complementares: o marco normativo que regula o CRT na região, o uso operacional do documento nas fronteiras do Cone Sul e as experiências internacionais de digitalização documental em outros modais de transporte. Essa abordagem permite compreender de forma integrada as limitações do modelo atual e identificar os elementos necessários para sua modernização.
Ao colocar essas três dimensões em diálogo, a iniciativa contribui para uma agenda concreta de transformação, baseada em evidências e alinhada às necessidades reais dos atores envolvidos no transporte terrestre internacional.
A modernização do CRT não deve ser compreendida como um processo incremental ou apenas tecnológico. Trata-se de uma mudança estrutural na forma de organizar o controle do transporte internacional. A nova importação brasileira já estabeleceu as bases para um modelo orientado por dados. O avanço do e-CRT representa a extensão natural dessa lógica ao transporte terrestre internacional.
Mais do que substituir o papel pelo digital, o desafio é garantir que a informação seja estruturada, interoperável e utilizável. É nesse ponto que a agenda do e-CRT se torna estratégica: ela não apenas acompanha a transformação em curso, mas contribui diretamente para sua viabilização.